GENTE SIMPLES

Sou tão inspirado por pessoas que decidi começar a partilhar aqui no blog pessoas que me inspiram.

Gosto de gente simples. Gosto. Quando digo simples, é simples mesmo. Não é aquele “simples” de casinha pequena, ou de conta bancária modesta ou de profissão com ordenado mínimo. E não é aquele “simples” fajuto com aquele toque azedo de falsa modéstia de quem tem tudo. É aquele “simples” daquelas pessoas que são genuínas, que estão de bem com a vida. Que nos recebem porque gostam de receber, que dão porque gostam de dar, que partilham porque gostam de partilhar, que não tentam provar nada a ninguém porque não têm nada a provar. São simples, quer caiam de ricos, quer não tenham onde cair mortos.

Gosto de gente assim. São as minhas pessoas preferidas no mundo. Talvez porque o meu avô era assim. Mas isto não é sobre o meu avô desta vez. É sobre três irmãos que são simples assim como eu gosto. Quando era miúdo, haviam 3 surfistas irmãos americanos que eu admirava. Eram dos meus preferidos. Via-os nas revistas e nos vídeos. Antes do tempo da internet. Na altura eram surfistas profissionais como os outros. Competiam, ganhavam algumas vezes, ganharam alguns títulos nacionais, eram patrocinados, enfim, surfistas pros como tantos outros. Mas já na altura havia qualquer coisa de diferente neles. Havia um carisma neles que outros não tinham. Daquilo que eu via e lia, parecia que olhavam para as coisas de maneira diferente. E eu miúdo olhava para eles e revia-me naquela maneira de ser e estar. Sou mais ou menos da mesma idade, e portanto da mesma geração, e apesar de nunca os ter conhecido pessoalmente continuo hoje a rever-me na forma como eles abraçam a vida.

A simplicidade dos irmãos Malloy é contagiante. Dan, Chris e Keith. Eles são gajos DIY antes de DIY ser DIY. Percorreram a costa californiana até Baja de paddleboard antes de se chamar SUP e ser a moda que é hoje. Saltaram fora do patrocínio da Hurley e passaram a ser patrocindos pela Patagonia (na altura uma marca mais ligada ao montanhismo) porque se fartaram do circo que o surf se tinha tornado. Preocupados com a natureza, não se consideram activistas, apenas pessoas a fazerem a sua parte para deixar o mundo melhor. Um deles transformou a carrinha para que ela funcione a óleo vegetal em vez de gasolina. Outro fez a costa californiana de bicicleta com pranchas atreladas durante 2 meses. Realizadores, fotógrafos, aventureiros, contadores de histórias. Tanto surfam meio-metro como 10 metros. Tanto surfam na Antártida como em Fiji. Fazem um pouco de tudo. Criativos, humildes e simples. Autênticos. Family men. Quando os ouço falar do pai e a influência que teve na vida deles, gosto de pensar que um dia o meu filho vai falar assim. Dan Malloy diz “it’s amazing how much one person can influence you“. Espero que a minha influência no meu filho o faça um bom ser humano. Uma boa pessoa. Uma pessoa simples. Aquele simples que eu gosto. Faz falta mais gente assim. No surf e fora dele.

Fica o vídeo. Inspirem.

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HUMANOS, MAIS UMA VEZ

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#natureconservation

Eu tento. Juro que tento ver o bom nas pessoas. Mas porra, fica difícil. Às vezes questiono-me se não sou eu que sobrevalorizo o meu senso comum. Mas eu todos os dias sou confrontado com seres humanos básicos, toscos, rudimentares e, como dizer, parvos como calhaus.

Sou um gajo que tento ver o bom nas pessoas e o bom no mundo. Juro que sou. Daqueles que acham que o nosso mundo pode ser maravilhoso se quisermos e a vida uma coisa que vale a pena ser vivida (chega pra lá, Lili Caneças). Mas porra, há sempre alguém a querer provar-me que o ser humano pode ser unicelular. E essa única célula não se encontra no apêndice que trazem em cima do pescoço.

Isto a propósito da notícia que morreu um golfinho numa praia da Argentina porque um grupo de seres humanos decidiram tirá-lo da água e desatar a tirar selfies com ele até ele morrer. Apesar de reconhecer que o golfinho provavelmente preferia morrer a tirar selfies com estes grunhos, bem sei que a história não terá sido bem assim. Quase garanto que o golfinho já deve ter dado à costa morto ou moribundo. Porque por acaso já estive no mar com golfinhos e garanto que não se deixam agarrar, muito menos sacá-los da água à mão. O que aqui me turva a compreensão, foi estes aberrantes humanóides passarem o corpo do golfinho morto ou moribundo de mão em mão para tirarem selfies com ele para eventualmente colorirem os seus murais de merda do facebook. Curioso para saber se escrevem na legenda: “Eu e o corpo de um golfinho morto na Playa Santa Teresita #lovewalkingdead 😛” ou “Melhores férias de sempre! Até fizemos um amigo! #zombieflipper“.

O video que acompanha a notícia mostra um homem a tentar que o golfinho se safe sozinho na água. Mas ele percebe que o animal não está bem. Inteligentemente tira-o da água funda, porque o golfinho é um mamífero e não um peixe, o que significa que respira através de pulmões. Se não estiver capaz de nadar, um golfinho pode afogar-se. Mas deixa-o numa zona onde é possível manter a humidade do corpo, sem que ele se afogue. Segundo a notícia o animal terá entretanto morrido. E é aqui que começa o carnaval das selfies, com uma pequena multidão a tentar tocar, mexer e fotografar-se com o desgraçado do animal morto ou ainda moribundo.

Tento encontrar uma forma de descrever estes básicos calhaus bárbaros que são tão estúpidos que até me custa entender como é que conseguem andar sobre duas patas e verbalizar palavras. Mas não consigo. Custa-me entender como é que no meio de tanta gente, não há uma única pessoa que diga: “Eiiiiiiii! Parou óh pacóvios! Mas vocês são parvos ou fazem-se?! Querem tirar selfies, vão práli práquela falésia ali em cima, ponham-se de costas para o mar e vão tirando fotos enquanto dão 2 passos para trás. Vá, pousem lá o animal antes que eu vos enfie este búzio gigante pelos cornos abaixo até ficarem a cagar perceves durante uma semana. Não conseguem ver que está morto óh bestas cúbicas?  Tenham respeito!“.

Foi um momento triste e de vergonha de pertencer à espécie humana, quando vi esta notícia. Uma vergonha. De tal maneira que o meu filho me perguntou do que é que estávamos a falar quando contava isto à minha mulher, e eu não tive coragem de lhe explicar. Ao ponto que se chega para ser-se o maior da sua rede social. Selfies com animais mortos. F#$@-se.

Lo siento, delfines. No somos todos pendejos.

O DIA DE AMOR DO ANO

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Se calhar não vou a tempo. Mas ainda assim, queria falar do dia dos namorados. Porque dia dos namorados é quando eu quero. Apesar deste ano calhar num domingo. Tenho a certeza que foi um dia maravilhoso para muitos casais. Passear de mão dada. Selfies a dois com o mar ao fundo. Flores em cada esquina. Postais com cupidos. Restaurantes cheios. Hotéis cheios. Corações cheios. Foi um dia de amor.

Eu que sou um gajo muito atento a estas coisas tinha um domingo inteirinho preparado para isto. Acordar às 6 da matina. Preparar um granda breakfast, daqueles continentais, com sumo de laranja, chá, scones, torradinha com manteiga, queijinho, fiambre, ovinho mexido, mel e uma flor. Ia preparar a música (o Dance Me to the End of Love do Leonard Cohen claro) para a acordar com uns beijinhos no pescoço enquanto o sol espreitava por entre as cortinas. Ia levá-la pela mão, seguindo o caminho de pétalas que dispus cuidadosamente no chão e que nos levavam até à kitchenette onde tinha o breakfast continental à nossa espera. Antes de nos sentarmos, dançávamos lentamente, bem juntos, ao som do Leonard Cohen, que estava a cantar só para nós. Comíamos em silêncio sereno, pautado apenas por beijinhos e festinhas na mão e o sorriso cúmplice quando o Leonard Cohen cantava “touch me with your naked hand“. Depois de comermos, dizia-lhe que tenho uma surpresa. E começei a abanar. A abanar, a abanar…

Ela_ Ouve lá, acorda! Estavas a sonhar com o quê? Estavas a cantar Leonard Cohen?

Eu_ Porra não me digas nada! Porque é que me acordaste?

Ela_ Então, porque estavas a cantar Leonard Cohen!

Eu_ Estava a sonhar que te tinha preparado um daqueles dias dos namorados, daqueles à pinga-amor.

Ela_ Tu? Pra mim?! Desde quando?

Eu_ Sei lá. Eu não ando bem. Não te rias. E a seguir ia te dar uma surpresa.

Ela_ O que era?

Eu_ Não sei. Acordaste-me.

Ela_ Fosse o que fosse, tu não me faças uma cena dessas.

Eu_ Qual cena?

Ela_ Um dia dos namorados à pinga-amor.

Eu_ Não te preocupes. Este até metia pétalas, música, fofices e até um pequeno-almoço continental.

Ela_ Um pequeno-almoço continental?

Eu_ Sim. Daqueles com tudo.

Ela_ Panquecas também?

Eu_ Não me lembro, mas se calhar tinha.

Ela_ Estás à espera de quê?

Eu_  Haha. Esquece. Tenho uma ideia melhor. Saltamos o pequeno-almoço e…

« Pai!!! Paaaaiiiii! Já acordei! Podes brincar comigo? »

Eu_ É o nosso filho?

Ela_ É.

Eu_ São 7 da manhã?

Ela_ São.

Eu_ Ainda bem que não ligamos ao dia dos namorados.

É que não há ano nenhum porra.

 

DIA INTERNACIONAL COM C GRANDE

 

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not my picture of course. it’s Pennie Smith’s. e é uma foto do caraças do Paul Simonon a tratar da sua Fender.

Gosto dos dias internacionais. Eu sei que há um bocado aquela coisa de “ah e tal, devemos é celebrar a paz todos os dia” ou o “todos os dias são dias da mulher” ou “dia mundial da amizade é uma estupidez porque não tenho amigos” ou “o dia internacional da pevide é ridículo“. Pois eu gosto dos dias internacionais. Algumas pessoas não percebem, mas os dias internacionais não são tipo uma marcação de consulta, que um gajo tem no dia 12 de março às 15h30 e depois pronto, passou. Não. São dias simbólicos, senhores e senhoras. Sim-bó-li-cos. Não quer dizer que um gajo não ame todos os dias os pais, que não se preocupe com o ambiente todos os dias, ou que não ache todos os dias que porra já é tempo das mulheres terem os mesmos direitos, deveres e oportunidades dos homens.

Por isso para mim os dias internacionais são cool. E gosto que hajam dias para tudo. Afinal de contas são 365 dias, porra. Nos anos mais pequenos. Pena é não haver mais.

Mas para quê esta conversa dos dias internacionais? Porque hoje é um dos dias internacionais que mais gosto. Dia Internacional dos Clash. Boom! Sim senhor. Há um dia internacional dos Clash. Vai buscar. E só para ti que não vais na conversa dos dias internacionais, eu ouço Clash todos os dias carago. E o meu filho também. Vá, todos os dias, não. Mas quase. E só por causa das tosses, vou ouvir hoje e é já. Tomem lá uma da minhas preferidas. Vão e tenham um bom fim-de-semana.

THE RETRO SERIES: O QUE TU QUERES SEI EU

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playground not playstation

Cá estamos para mais uma da Retro Series, onde recupero um post antigo escrito no meu antigo blog.

Hoje lembrei-me de um post que escrevi quando o meu filho me pediu uma méspê. Já lá vai 1 ano e meio. Escusado é de dizer que passado este tempo todo, ele continua sem méspê. Sou um pai horrível. Mas apesar disso, ele já não pede a méspê e continua feliz e o mundo não acabou, e eu, bom, eu consegui o tal aumento apesar da carga horária manter-se. Não se pode ter tudo.

Fica aqui o post para perceberem do que é que estou a falar. Enjoy.

“pai, quero uma méspê”.

Eu_ “uma quê?”

Ele_ “méspê! méspê! não sabes?”

Eu_ “não filho. não sei. é o quê?”

Ele_ “é uma coisa preta para jogar.”

Eu, incrédulo, mas ainda em dúvida_ “uma PSP?”

Ele_ “sim é. uma péspê”.

E começou desta forma a birra de 30 minutos até casa. Diz ele que quer uma PSP. Digo eu que nem pensar. PSP. PlayStation Portátil, não as forças de segurança. Deve estar a brincar comigo. Ao que parece, um miúdo lá da escola tem uma e levou-a. Um colega dele portanto. Um miúdo de 4 anos. Com uma PlayStation Portátil. Teria muito a dizer sobre isto. Na verdade, apeteceu-me falar no assunto na reunião de pais que tivemos na escola esta semana. Falar como à conta disso tive de levar com uma birra monumental do meu filho. Como tive de explicar a um puto de 3 anos porque é que o amigo tem uma PSP, mas que ele não pode nem vai ter uma. Como tive de ser incisivo e assertivo na minha posição intransigente de “não te vou dar nenhuma PSP”. Como tive de fazer um exercício de retórica e pensamento abstracto para além do humanamente possível de forma a explicar-lhe porquê. Como por causa do amigo e da sua PSP tive um final de dia de merda e o meu filho também. Mas epá, quem sou eu para julgar os outros pais. Os pais do Zé (vamos chamar-lhe assim) também certamente não concordarão com o meu filho a andar de skate sozinho com 3 anos. Um desporto perigoso e que pode levar a que ele parta um braço ou uma perna.

A mim faz-me confusão os pais queixarem-se que os putos são muito dependentes dos jogos e dos iPads e iPhones, quando são eles que os põem nas mãos dos filhos com 3 anos. A eles deve fazer confusão eu queixar-me do meu filho se espetar em ouriços quando sou eu que o deixo andar em cima das lages no mar. Ou de me queixar da frustração dele quando não consegue alguma coisa, quando sou eu que lhe digo que ele consegue tudo se quiser. É assim. Somos todos os melhores pais do mundo. E somos todos uns pais de merda. Tive muita vontade de falar no assunto na reunião. Mas depois não o fiz. Porque isto é uma lição. O meu filho nem sempre vai ter tudo o que o amigo ou colega tem. Nem os amigos ou colegas vão ter tudo o que ele tem. Ele tem de aprender a lidar com isso. E eu tenho de aprender a conseguir explicar o inexplicável. Ou pelo menos que faça algum sentido na cabeça dele. E se eu conseguir isso com um miúdo de 3 anos, raios me partam se não vou conseguir convencer o meu chefe a dar-me um aumento e a reduzir-me a carga horária.

CARTA ABERTA A UM AVÔ E A UM PAI

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Avô e pai que se cruzaram comigo ontem,

A lição que deram ontem às crianças que vos acompanhavam é um atestado à mais básica estupidez humana. Ontem, as duas crianças que cada um de vocês levava pela mão assistiram no espaço de 1 minuto a vários exemplos da elementar falta de valores, da fundamental falta de responsabilidade e da falta do mais básico senso comum. Tenho pena por elas. Tenho a certeza que vocês são para elas modelos de conduta, e com base naquilo que esses miúdos viram ontem, a possibilidade de repetirem tamanha estupidez é grande, o que é uma pena. Porque na melhor das hipóteses fará delas seres humanos básicos sem sentido de civismo ou na pior das hipóteses poderá lhes custar a vida.

Explico para que seja mais claro, uma vez que com base no que vi ontem o vosso nível intelectual está ao nível dos calhaus nas pedreiras. Quando se atravessa uma estrada devem fazê-lo numa passadeira. É certo que nem sempre isto é possível. Quer por sermos preguiçosos, quer por não haver nenhuma. Eu próprio já atravessei a estrada fora de uma passadeira, quer por um motivo quer por outro. Quem não o fez? Mas mesmo quando atravesso uma estrada sem ser na passadeira, faço-o rapidamente, nunca a passear, e nunca a pôr em risco a minha vida ou a dos outros. Isto quando estou sozinho. Quando levo o meu filho na mão, nunca atravesso fora da passadeira. Nem que tenha de andar mais 100 metros. Se por acaso a estrada não tiver passadeira, ensino-o o mesmo procedimento. A olhar para todos os lados. E só depois de nos certificarmos que é seguro, é que atravessamos rapidamente. Rapidamente e nunca a passear. Tomem notas se estiver a ser muito confuso ou rápido para vocês.

O que vocês ontem fizeram é típico dos animais que acabam atropelados na autoestrada. Por isso, resta-me concluir que o vosso senso comum é equivalente a de um bode que foge do rebanho ou do curral e que decide atravessar a A1 para ir pastar ao outro lado.

Quando eu tive de travar e buzinei de aviso, o facto do bode mais velho, desculpem… do avô… não, esqueçam, é mesmo bode… ter vindo me pedir justificações e chamar-me estúpido em frente às crianças, leva-me a crer que além da inteligência afunilada de um bode velho, tem também a incapacidade de reconhecer o mal que está a fazer às crianças que o acompanham, tendo o nível de consciência e empatia de um monte de estrume de vaca, daqueles que ficam a fumegar no meio do pasto a fermentar.

As caras assustadas e confusas das crianças diziam tudo. Mas como se costuma dizer, todos os cães têm sorte, e a vossa sorte é isto ter acontecido comigo. Se tivesse acontecido com um acelera ou alguém distraído, ontem 4 pessoas tinham sido atropeladas. 2 adultos irresponsáveis mentecaptos e 2 crianças inocentes. Ou se tivessem apanhado algum maluco, quando o bode velho viesse pedir explicações, tinha saído do carro e aviava-lhe a receita.

Mas não. Felizmente tiveram sorte. Desta vez. Porque calhou comigo. Ainda bem, ainda bem.

Agora vamos lá recapitular, a ver se percebem e explicam às crianças tudo o que correu mal ontem e que poderá salvar-lhes a vida no futuro:

  • A passadeira que tinham a 10 metros é o sítio certo e ideal para tentarem atravessar a estrada. Não devem evitar andar esses 10 metros só porque são preguiçosos, porque o que ficou retido na cabeça das crianças que levavam é que não precisam de atravessar na passadeira e que podem atravessar em qualquer sítio. Errado. Agora repitam comigo: “meninos, o que o avô e o pai fizeram ontem está errado. Nunca devemos atravessar fora da passadeira quando há uma.
  • Antes de atravessar a estrada, olhem com atenção para ambos os lados e não se atravessem em frente a carros que estão a passar. Um carro que bate no corpo, aleija. Aleija a sério. E às vezes até mata, pasmem-se. O que ficou retido na cabeça das crianças é que não precisam de olhar nem esperar que os carros passem, e que podem atravessar repentinamente quando quiserem. Errado. Agora repitam comigo: “meninos, o que o avô e o pai fizeram ontem é muito perigoso. Nunca nos devemos atravessar em frente a carros que estão a passar e devemos sempre olhar antes e esperar que não venha nenhum carro para atravessar.
  • Quando se atravessa uma estrada, devemos sempre fazê-lo o mais rapidamente possível e nunca a passear, sempre, mas especialmente se estivermos a atravessar fora da passadeira, e particularmente se levarmos crianças na mão. O que ficou retido na cabeça das crianças é que podem passear no meio da estrada sem qualquer preocupação, porque os carros que parem. Errado. Agora repitam comigo “meninos, o que o avô e o pai fizeram ontem nunca se faz. Devemos sempre nos despachar a atravessar a estrada, porque senão algum carro pode nos bater e podemos ficar seriamente magoados ou até morrer”.
  • Por fim, quando alguém buzina para avisar, é para evitar que se magoem ou para se aperceberem do perigo. Quando se vem pedir justificações a insultar quem vai no carro quando não se tem a mínima razão, arriscamos a apanhar alguém que não está para isto e corremos o risco de levar na tromba. O que ficou retido na cabeça das crianças é que se podem meter a insultar pessoas que não conhecem mesmo quando não têm razão. Errado. Agora repita comigo: “meninos, o que o avô fez ontem não se faz. Não nos devemos meter com pessoas que não conhecemos e muito menos insultá-las sem termos razão. Pode até ser perigoso. O senhor do carro estava a ser simpático e a alertar para a merda que o avô e o pai estavam a fazer ao pôr em risco a vossa vida e ao dar-vos um exemplo triste do que não se deve fazer. Devemos lhe pedir desculpa e agradecer o alerta, prometendo que nunca mais fazemos tamanha asneira.

Bom, espero ter sido de alguma ajuda e de alguma forma ter contribuido para um futuro mais seguro desses miúdos. Se não conseguiram perceber, o que acho natural tendo em conta o que vi ontem, peço-vos o favor então de entregar a tutela das crianças à mãe e à avó, caso estas sejam mais prudentes e responsáveis. Querem se matar, façam-no sozinhos. Os miúdos não têm culpa.

BALANCEM OS OPOSTOS

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ex. um abraço anula uma frustração

E vai para mais de 1 mês que não escrevia. Já precisava. Eu escrevo para partilhar, para recordar, para pensar e fazer pensar, para rir e fazer rir, mas também escrevo para me libertar. Libertar de frustrações. Sou fácil de frustrar. Porque sou muito atento aos detalhes e aos valores. Detalhes há muitos. Valores há poucos. E isso dá-me cabo da cabeça e da paciência. O raio das frustrações vêm de todo o lado. Frustrações por ter de lidar com merda no trabalho. Frustrações de ter de levar com mentecaptos no trânsito. Com falta de civismo no supermercado. Com falta de carácter de pessoas que nos rodeiam. Com o Estado que nos consome em vez de nos representar. Com os bancos que nos espremem quando somos nós o ganha-pão deles. Com a mãe do colega do nosso filho que estaciona o carro em cima da passadeira ou do passeio para não mexer a peida gorda e andar mais 5 metros. Com o javardo que deixou a toalha do ginásio no chão para o funcionário a apanhar em vez de a meter no cesto das toalhas sujas. Com amigos que deixaram de o ser porque nunca o foram. Com aquela pessoa que pensávamos que nos era leal mas que afinal é tão reliable como um chapéu de chuva num furacão. Com o lixo que vemos todos os dias na TV e no jornais. Com o lixo que vemos todos os dias no chão. Um gajo se não se põe a pau, anda frustrado todos os dias e a toda a hora. Por isso é preciso libertar. Eu apesar de ter o dom de me frustrar facilmente, tenho felizmente também o dom de me libertar das frustrações com coisas simples. Um abraço do meu filho. Uma manhã de skate com ele. Uma surfada sozinho na minha onda preferida. Uma volta com o meu cão na Foz. Beber um copo de vinho com a minha mulher enquanto contamos histórias ou falamos de música. Ouvir o album The River do Bruce Springsteen. Cozinhar uma coisa nova. E escrever.

Vocês que me lêem, não se deixem frustrar como eu. Ou se forem como eu, libertem-se como puderem. À vossa maneira. O mundo pode ser uma valente bosta, mas também pode ser uma verdadeira pérola no meio deste vasto universo. Lembrem-se de que para cada perfeito anormal que vos fecha a porta na cara, há alguém que adora beber um copo e conversar convosco. Para cada estafermo que se enfia à vossa frente à cara-podre quando estão há uma hora parados na fila, há uma pessoa disposta a dar o seu lugar na fila de compras do supermercado porque vocês só levam um saco de pão. Para cada colega cínico e mesquinho no trabalho, há um que vos adora e admira pelo vosso trabalho e carácter. Para cada insulto de um filho-da-puta, há um abraço de um filho, de uma irmã, de uma mãe ou de um pai. Para cada mossa na porta do carro, há um album do Bruce Springsteen. É isto a vida. Yin e yang. Mau e bom. Preto e branco. E viver é isto. The balance of opposites.

E eu já me sinto melhor. Até ao próximo estafermo que se atravesse à minha frente. Depois lá vem o abraço ao filho e o álbum do “Boss“.

Balancem esses opostos, meus amigos e minhas amigas, balancem esse opostos.

 

O PUTO

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do latim putu – «menino; rapazinho» || from the latin putu – «boy; little kid»

read in english

“Puto” diz ele para mim. Fiquei a olhar à espera do que vinha a seguir. “Puto” repete. E fica a olhar para mim. E  aí percebi que além de ele não saber exactamente o que era um “puto” ou como e quando usar a palavra, percebi também que não sabia com quem a podia usar.

Pensei que isto vai precisar da minha intervenção rapidamente antes que descambe.

Eu_ Filho, não podes chamar “puto” ao pai. Sabes o que quer dizer “puto”?

Ele_ Não.

Eu_ Puto quer dizer miúdo ou menino.

Ele_ Ah…

Percebendo que isto só assim não chegava para evitar males maiores e antecipando o que iria acontecer quando estivesse na escola, pergunto:

Eu_ E se for uma menina, como é que achas que se diz?

Ele fica a pensar, e diz: Puta.

Eu_ Não. Essa é uma palavra que não podes dizer nem chamar a ninguém. É uma palavra feia.

Ele_ Então como é que se diz para as meninas?

Eu_ “Puto” é uma palavra que não existe para as meninas. Só dá para usar com os meninos. Para as meninas, a palavra mais parecida é “miúda”. E “puto” é uma palavra que só podes usar com os amigos meninos da tua idade. Não se deve chamar “puto” às pessoas mais velhas do que tu e nunca aos adultos.

Ele_ Porquê?

Eu_ Olha, porque é assim, “puto” quer dizer miúdo e por isso não podes chamar nunca aos mais velhos.

Ele_ Mas pai… tu não és velhote. Tu és um miúdo.

Eu_ …………… És o maior, puto! Dá cá um abraço!

 

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Puto” he says to me. I just looked waiting for what was coming next. “Puto” he says again. And he just stares at me. Waiting to see my reaction. And right then I understood that not only wasn’t he quite sure of what puto meant or how and when to use the word, he also didn’t know with whom he can use with.

I thought to myself that this is going to need my intervention asap in order to avoid future mishaps.

Me_ Son, you can’t call “puto” to your father. Do you know what “puto” means?

My son_ No.

Eu_ “Puto” means kid or boy.

Ele_ Ah…

Aware that this simple explanation wasn’t enough to avoid greater damage and anticipating what might happen if he said this at school, I asked him:

Me_ And if it’s a girl, how do you think it’s said?

He thinks for a second and says: “Puta”. (note: which literally means whore in Portuguese)

Me_ No. That is a word you can’t say or call anyone. It’s a bad word.

My son_ So how do you say “puto” to girls?

Me_ “Puto” is a word that doesn’t exist for girls. You can only use it for boys. For girls, the closest word is “miúda”. And “puto” is a word you can only use for friends your age. You shouldn’t call “puto” to people older than you and never to adults. It’s disrespectful.

My son_ Why?

Me_ Well, because it just is. “Puto” means kid and you can’t call kid to an older person.

My son_ But dad… you’re not old. You’re a kid.

Me_ …………… You’re the best, kid! Let me give you a hug!

DOMINGOS

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love sunday sessions

read in english

Domingos de manhã são do que mais gosto. Até o meu filho nascer, eu odiava domingos. Dias de neura. Mas agora são do que mais gosto. Acordar cedo, vestir, calçar, agarrar os skates e os capacetes e as protecções e ir até à Boardriders. Ver o meu filho a divertir-se no skatepark é o meu elixir matinal. Olho para ele a dropar o bowl, a coragem nos olhos, a determinação na posição do corpo e o sorriso que vem a seguir, e o meu dia está feito. Às vezes ainda me lembro da médica da ecografia transfontanelar a dizer-me que o meu filho tinha uma leucomalácia porque tinha sido visto uma zona com líquido no cérebro. Ainda me lembro da médica dizer que ele provavelmente viria a ter dificuldade de movimento ou fraqueza muscular num dos lados do corpo. E de que da leucomalácia poderia vir a desenvolver paralisia cerebral. Já falei nisso antes. Mas porra, quando o vejo nos domingos de manhã, não deixo de me comover e de respirar fundo de alívio e de felicidade. E quando escrevo #damnblessed é porque é isso mesmo que sinto.

Ele não sabe de todas estas tangentes que passou. Não sabe porque é que respiro fundo de alívio quando o vejo a brincar, a correr e a saltar. Não faz ideia porque é que olho para o céu e sorrio quando o vejo a dropar um bowl ou a conseguir descer um rampa e ir ao quarter pipe e voltar sozinho. Ele não faz ideia. Mas faz bem ideia do quanto gosto dele e o admiro. Porque ainda ontem quando me deitei no final da noite no sofá e ele veio se deitar ao meu lado a ver TV, abracei-o e perguntei-lhe “sabes porque é que eu adoro-te filho?“. Ele respondeu “sei“. “Então porquê?” perguntei eu. Diz ele “porque eu sou o teu amigo, e porque gostas muito de mim, e porque sou o teu tesouro“. Sorri e disse-lhe “é isso mesmo filho, é que é isso mesmo” e dei-lhe um beijo.

Pode não saber muita coisa. Mas sabe uma das coisas mais importantes que uma pessoa pode saber. Sabe que os pais o amam. E assim acabou mais um domingo. Porra, adoro domingos.

 

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I love Sunday mornings. Before being a father, I used to hate Sundays. No joke. They were depressing. But now they’re my favorite. Waking up early, getting dressed, shoes on, grab our skateboards and helmets and pads and roll over to the Boardriders skatepark. Watching my son have fun at the skatepark is my morning potion. I see him dropping in the bowl, the courage in his eyes, the commitment in his posture, and the smile that follows, and my day is made. sometimes I still remember the doctor with the transfontanellar ultrasound telling me my baby son had a periventricular leukomalacia (PVL), a type of brain injury that involves the death of small areas of brain tissue around fluid-filled areas called ventricles. The damage they say creates “holes” in the brain. I still remember the doctor saying he might have some type of movement disorder or weakness on one side of his body. And that the PVL might lead to cerebral palsy. I’ve written about that before, I know. But damn, when I see him on Sunday mornings, I can’t help feeling moved and taking a deep breath of relief and joy. So when I hashtag #damnblessed I really mean it.

He doesn’t really realize the close calls he’s been through. He doesn’t know why I breathe of relief when I see him play, run and jump. He has no idea why I look up to the sky and to heaven and smile when he makes the drop into the bowl, or when he hits the quarter-pipe by himself. He has no idea. But he has a very good idea of how much I love and admire him. Because just last night, when I laid down on the sofa and he came to lay down next to me to watch TV, I hugged him and asked him “you know why I love you so much, son?“. He answered “yeah“.  “Why is it then?” I asked. He answers “because I’m your best friend and you love me and I’m your treasure“. I smiled and said “that’s right, son, that is exactly right” and I kissed him.

He may not know a lot. But he knows one of the most important things that one can know. He knows his parents love him. Just another Sunday. Damn, I love Sundays.