MATAR A SAUDADE

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o meu amigo fotografado por mim dentro de água a surfar uma onda no Lagide

Sabem como às vezes despareço e não escrevo nada e o blog parece uma biblioteca em dia de jogo da Selecção Nacional? O mesmo acontece comigo na vida real. Não que o blog não seja a minha vida real. Mas vocês percebem o que estou a dizer. Adiante. Eu na vida real também desapareço de vez em quando. Os meus amigos bem o sabem. Amigos. Muitos. Vivi em 2 países diferentes. Em 7 cidades diferentes. Andei em dezenas de escolas diferentes. Estou activamente em 2 redes sociais de relevo. E já estive em 3 outras. Tenho 1 blog. Já tive outros 2. Pelo caminho, fui fazendo amigos e amigas. Muitos e muitas. Alguns bons. Alguns muito bons. Alguns extraordinários mesmo. Muitos assim-assim. Outros ficaram pelo caminho. Os que ficaram pelo caminho, foi por circunstâncias da vida, outros porque não passaram o teste da amizade nem o teste do tempo. Também os há. Mas os que ficaram por cá, esses são do caraças. Passam-se dias, semanas, meses e em alguns casos até anos que não vejo alguns. Quando os vejo, é como se o mundo tivesse parado ou em pause. O amor e amizade que sinto por esta gente tem esse poder. E o amor e amizade deles por mim o mesmo. E não se enganem. Eu não sou um gajo fácil de guardar como amigo. No sentido que desapareço de tempos em tempos. Puf. Gone boy. Não sou um amigo de telefonemas ou mensagens frequentes. Eu nem à minha mãe às vezes atendo o telefone (sorry mom, you know I love you). Não sou de visitas regulares. A máxima “longe dos olhos, longe do coração” pode ser um carrasco implacável para quem é meu amigo e acredita nela. É que passo muito tempo “longe dos olhos“. Mas nunca guardo os meus amigos longe do coração. Eles sabem que sou gajo de desaparecer. Mas também sabem que o lugar deles é no meu peito e que aquele espaço ali é intemporal. É para sempre.

Isto a propósito que na semana passada revi um amigo que já não via há tempo demais. Um irmão. Um gajo incansável na insistência em não perder o contacto comigo, porque o gajo já sabe o que é que a casa gasta comigo. Passámos muitos e bons momentos juntos. Partilhámos ondas, viagens, copos, cigarros, trabalhos e histórias. Partilhámos madrugadas frias nas ruas de Lisboa e manhãs geladas nos areais de Peniche. Partilhámos viagens a Sagres e aventuras em Mundaka. Manhãs em branco a trabalhar e a descarregar camiões. Noites a beber e a rir já sem um tusto no bolso e sem saber bem como voltar para casa. Partilhámos angústias e expectativas. Sonhámos. Acordámos para a vida. E sonhámos outra vez. A semana passada ia eu a caminho da praia onde tantas vezes nos encontrámos com os carros na reserva e a cheirarem a wax para decidir onde surfar, desta vez com o meu filho no banco de trás em vez do fato húmido, e bateu-me uma filha-da-puta de uma nostalgia que só visto. Comecei a contar ao meu filho histórias daquele tempo. Ou pelo menos algumas. As que ele pode ouvir.

Hoje somos os dois pais. Cada um com a sua vida. Responsabilidades e mais não-sei-quê. A vida não é exactamente aquilo que sonhámos. Mas anda lá perto. Muito perto. Em algumas coisas, superou os nossos sonhos. Engraçado quando amigos assim, se deixam de ver, as suas vidas podem seguir caminhos diferentes, mas quando se encontram, percebem que não estão muito diferentes um do outro. Ambos vivemos junto ao mar. Ambos temos 2 filhos incríveis. Ambos continuamos a agarrar a vida pelos cornos e tentar aproveitá-la o melhor que podemos. Ambos preocupados com a natureza, com o mundo e com as pessoas. Ambos com o mesmo medo de morrer e as mesmas fobias porque a vida é tão boa, porra. Ambos ainda a sonharem. Este gajo, não o via há tempos, mas parece que estivemos juntos desde sempre. Quando a mulher dele disse-me que devíamos de nos encontrar mais vezes porque éramos como irmãos, aquilo bateu-me. Percebi que apesar dos meus amigos e das minhas amigas saberem que os amo mesmo quando desapareço, que o tempo não espera por ninguém. E que toda a gente gosta de ver e abraçar as pessoas de quem gostam. E que um dia um gajo põe-se a pensar e pensa que deviam se ter encontrado mais vezes. Que um gajo já tem de ver diariamente pessoas que não quer e não gosta e depois podia fazer mais para ver as pessoas que quer e que gosta.

Não sou um amigo fácil de manter. Porque desapareço. Mas quando gosto, gosto a sério, mesmo quando despareço. Mas tenho de me deixar de armar em Houdini. Pelo menos encurtar os meu desaparecimentos.

Fica o meu conselho. Não despareçam como eu. Agarrem nessa cena que carregam no bolso ou nas malas e em vez de ir espreitar à janela do instagram ou do facebook, usem-no para mandar uma mensagem ou telefonar mesmo. O iPhone e o android também servem para telefonar. Combinem uma coisa qualquer. Surfada, skatada, café, chá, scones, cinema, um jog, praia, compras, sardinhada, pic-nic, aula de fitness, qualquer coisa. Mas arranjem maneira de se verem. O instagram e o facebook são porreiros, mas toda a gente sabe que aquela foto do Rock in Rio a 1 km do palco com os dentes arreganhados não nos faz tão feliz como um abraço e uma gargalhada juntos na esplanada com duas fresquinhas e uma travessa de caracóis à frente. Não gostam de caracóis? Comam percebes, azeitonas, qualquer coisa. Vá vão lá, e agradeçam-me depois.

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