DE MÃE PARA PAI

Processed with VSCOcam with hb2 preset

love

Recebi este email da mãe do meu filho:

No dia do Pai quem escreve é a mãe!

Neste dia comemoro a minha sorte imensa. Para mim o Pai não é uma figura, é uma instituição.

Tive a sorte de ter o melhor Pai, e o azar de o ter por pouco tempo. O meu Pai é o meu herói. Assumiu para ele a minha vida, só a morte quebrou o seu compromisso. O meu Pai levava-me para todo o lado. Desde ir comprar roupa até ao jantar com clientes. Ensinou-me a pregar um prego e o quão preciosa é a nossa honra e dignidade. Ensinou-me que podemos existir mesmo depois de morrermos. Ainda hoje o busco e às vezes até parece que conversamos. Nunca está longe mas é a pessoa de quem mais tenho saudade.

Tive a bênção de encontrar a única pessoa capaz de ser tão bom Pai quanto o meu foi. Tive a felicidade de o escolher para Pai do meu filho. O Pai do meu filho é o melhor Pai do mundo. No joke! Não é clichê, é a mais pura das verdades. O Pai do meu filho está sempre presente, sempre. A sua prioridade é o meu filho. O Pai do meu filho renuncia de tudo para ele, ama-o de verdade e isso faz com que renuncie por amor, sem qualquer sofrimento. O Pai do meu filho ensina-o por exemplo, não lhe diz o que fazer, faz. O Pai do meu filho sabe brincar com GI Joes e nada deixa o meu filho mais feliz. O Pai do meu filho sabe contar as melhores histórias, melhores que as histórias dos livros. O meu filho pede-lhe “uma história da tua cabeça” porque sabe que são as mais divertidas. O Pai do meu filho foi Pai e Mãe durante o segundo ano de vida do meu filho. Desempenhou com excelência os dois papeis e ser-lhe-ei eternamente grata por isso. O Pai do meu filho é o seu companheiro preferido, é a primeira pessoa que o meu filho escolhe quer seja para andar de skate quer seja para fazer análises.

Tudo o que lêem neste blogue é uma pequeníssima amostra do que é o Pai do meu filho. É a maior dádiva que alguma vez poderei dar ao meu filho, o seu Pai.

Sem palavras.

Anúncios

THE RETRO SERIES: ESCOLHE UM IOUGURTE

1390751_10201186897216173_141652067_nfin

Dia de recordar bons momentos do passado. É dia de Retro Series onde recupero um post do meu blog antigo. Desta vez lembrei-me daquela vez em que escrevi sobre as epopeias que são as nossas idas às compras e a lição de vida que um iogurte pode dar. Hoje em dia, as idas às compras continuam. Já sabe escolher os ovos, comprar pimentos-padrão e pedir a carne no talho. Já não lambe é a fruta. Penso que desde que tentou lamber um kiwi.

Fica aqui o post escrito há 2 anos. Enjoy.

– “Filho, vens com o pai?”
– “Siiiiim”

É a resposta sempre que vou às compras agora. Comecei a levar o meu filho às compras comigo. Vamos os dois. Achei que seria boa ideia. Assim juntava o útil ao agradável. Fazia as compras, passávamos tempo juntos e ainda o ensinava umas coisas.
Se eu já demorava a fazer compras antes, agora isto tornou-se numa epopeia. Saímos e vamos direito ao hipermercado. Pelo caminho espeto com o CD dos Clash. O dos Ramones ardeu juntamente com o meu último carro. Cantamos pelo caminho. Chegamos e estacionamos. Dou-lhe uma moeda, pego-o ao colo e deixo-o destrancar o carrinho de compras. Meto-o lá dentro e aí vamos nós. Ele leva a lista na mão. Olho para ele no carrinho e parece um comandante na proa de um veleiro. Primeiro vamos à secção dos brinquedos. Despachar o assunto. Deixá-lo mexer em tudo. Depois de agarrar em todos os brinquedos e de os estudar meticulosamente, volta a metê-los nas prateleiras. Sem birras nem choros. Nisso sempre foi assim. Sou capaz de o levar ao Toys R’Us e sair de lá sem lhe comprar nada sem stress nenhum (só aconteceu uma vez na loja da Disney mas não quero falar sobre isso). Adiante. Depois da secção de brinquedos, vamos ao que aqui viemos. Vamos direito à secção de frutas e legumes. Lá ensino-o a escolher, ao mesmo tempo que lhe ensino os nomes e as cores. Courgettes, cenouras, alho francês, tomates. Morangos, bananas, laranjas, maçãs. Deixo-o pôr nos sacos. Ele adora. É metódico e exigente a escolher fruta e vegetais. Agarra nas peças, encosta-as ao nariz e dá-lhes uma snifadela. Depois de cheirar, lambe-as para perceber o sabor. Não se preocupem. A gente leva todas as que ele lambe. E quanto aos micróbios que possam estar na fruta, esses não têm hipóteses. No worries. Depois vamos à carne e ao peixe. Na peixaria, vou-lhe mostrando os peixes todos em exposição. Vou-lhe ensinando os nomes. A seguir vamos aos iogurtes. Escolho os que quero. E depois deixo que ele escolha uns que ele queira. Normalmente já sei se ele vai gostar ou não dos que escolhe. Mas isso pouco me interessa. Levo-os na mesma. Porque quero que ele perceba que nem tudo o que parece bom é. E nem todas as escolhas que fazemos são as acertadas. E começa-se assim. Com iogurtes. Fazemos o resto das compras e vamos para a caixa. Deixo que seja ele a enfiar o cartão MB na máquina e retirá-lo. Vamos para o carro. Compras no porta-bagagens. E vamos até mais 2 supermercados, porque não faço as compras todas no mesmo. E a cena repete-se. Chegamos a casa com sentimento de dever cumprido.

Porque é que interessa isto tudo? Porque um dia vou-lhe perguntar “filho, vens com o pai?” e a resposta dele não vai ser “siiiiiim”. Porque o tempo que passamos com os filhos às vezes é escasso. E temos que fazer o melhor com esse tempo. Porque pequenas lições hoje serão grandes valores amanhã. E pode se começar já hoje com iogurtes.

O PRESENTE PARA ACABAR O DIA

Dia especial o de ontem para a minha mulher. Eu e o meu filho dedicámos o final do dia todo a ela.

  • Ao sairmos da escola do miúdo no final do dia para ir para casa, vou direito para a porta do pendura:

Ela_ Vou eu a conduzir?

Eu_ Porque hoje é dia da mulher, hoje tens o direito a levar tu o carro para casa. Não é fixe?

  • A caminho de casa:

Ela_ O que jantamos hoje?

Eu_ Porque hoje é dia da mulher, hoje tens o direito a fazer o jantar. Não é fixe?

  • Ainda a caminho de casa:

Ela_ Então o que querem que eu faça para jantar?

Eu_ Não sei. Filho, o que queres comer hoje?

O meu filho_ Burritos!

Ela_ Mas então temos que passar na loja para comprar os ingredientes.

Eu_ Porque hoje é dia da mulher, hoje tens o direito de ir ao supermercado comprar as coisas. Não é fixe?

  • Na loja:

Ela_ Já tenho tudo. Vamos pagar. Tens aí o cartão do Continente?

Eu_ Não trouxe a carteira. Hoje como é dia da mulher, tens o direito a pagar as compras. Não é fixe?

  • Em casa:

O meu filho_ Mãe, fiz-te um presente na escola para o Dia da Mulher:

Processed with VSCOcam with lv01 preset

 

Eu_ Não é fixe?

 

NÃO É SÓ MAIS UM DIA

Mary_Anne_Hawkins

Mary Ann Hawkins, uma das primeiras mulheres surfistas nos anos 30 num meio onde só se viam homens. Era sempre a única mulher no line-up.

Há pessoas que acham que este dia não devia existir. Há pessoas que não querem um dia para as mulheres. Há pessoas que se esquecem do que significa um dia da mulher. Há pessoas que acham que um dia da mulher anula a mulher em todos os outros dias do ano. Há pessoas que não sabem o que dizem. Há pessoas que não percebem que o que anula as mulheres não são dias. São outras mulheres. E outros homens. Há pessoas que não sabem que o dia da mulher não é a celebração da mulher só por si. É muito mais. Celebra a realização e as conquistas das mulheres. Que não foram poucas. Celebra as mulheres e os homens que desde sempre lutaram e lutam pela igualdade de oportunidades, direitos e deveres entre todos e todas. Celebra muito mais do que paridade na política e no emprego. Celebra a Billie Jean King, a Amelia Earhart, a Rosa Parks, a Marie Curie, a Malala, a Patti Smith, a Madonna, a Christy Mack, a Sally Ride, a Marilyn Monroe, a Joan Baez, a Patti McGee, a Mary Ann Hawkins, a Katharine Hepburn, a minha mulher, a minha mãe, as minhas irmãs e as minhas sobrinhas. E celebra todos os homens que estão ao lado e do lado das mulheres na constante luta pela igualdade. Pela igualdade mesmo. Não é a igualdade numérica. Não é a igualdade 50/50. É a igualdade de oportunidades e circunstâncias. É a igualdade em apanhar uma onda. A igualdade em descansar os ossos quando um filho chora a meio da noite. A igualdade em vestir o que se quiser sem ouvir puta ou ordinária. A igualdade numa one night stand. A igualdade a pagar a conta. A igualdade a beber uma cerveja. A igualdade a sentar no sofá quando se chega a casa. Now that’s fucking equality.

Ah e tal, isso é tudo muita giro mas e tu, o que é que fazes pela igualdade? Nunca mandaste uma piada sexista?

Já sim senhor. Não sou perfeito e não vou receber nenhum Nobel. Mas não sou hipócrita. Penso nas coisas. Tento mudá-las quando é preciso mudá-las. Pequenos detalhes mostram como culturalmente estamos condicionados até nas coisas mais básicas. Por exemplo, o outro dia pus-me a pensar porque raio sou sempre eu que conduzo quando andamos de carro juntos. Assume-se automaticamente que o homem é que leva o carro. Então expus a situação e decidimos que levamos o carro à vez. Mais um pequeno passo para a igualdade de género. E um grande passo para mim que posso passar pelas brasas em viagens longas ou esticar as pernas e curtir a paisagem. Por outro lado sou eu que me levanto cedo ao fim-de-semana para a minha mulher ficar na cama e trato do miúdo e do pequeno-almoço. É que ninguém faz pequenos-almoços como eu. Excepto talvez o Four Seasons Resort. Quem é que diz que não ficamos todos a ganhar?

Bom Dia da Mulher para todas e todos.

SOM DAS SEXTAS

Hoje é sexta-feira. Por isso e porque gosto de partilhar o que é bom, deixo-vos aqui o novo album “You and I” do Jeff Buckley que sai no dia 16, para ouvirem, cortesia do NPR Music e minha também. É clicarem na capa do disco ali em baixo. Vão lá e tenham um excelente fim-de-semana.

*Pequeno enquadramento para quem não sabe. Comprei o primeiro album de Jeff Buckley em 1994. Foi o primeiro CD que comprei na vida. Ele morreu uns anos depois em 1997 com 30 anos. Afogado no rio Mississippi. Era filho do Tim Buckley (músico dos anos 60) que morreu também cedo aos 28 anos. Este albúm que sai para a semana é de músicas que ele gravou antes de lançar o seu primeiro e único album. São músicas que nunca foram lançadas antes. A maior parte são covers. E são verdadeiras obras primas.

c0742ecf

 

GENTE SIMPLES

Sou tão inspirado por pessoas que decidi começar a partilhar aqui no blog pessoas que me inspiram.

Gosto de gente simples. Gosto. Quando digo simples, é simples mesmo. Não é aquele “simples” de casinha pequena, ou de conta bancária modesta ou de profissão com ordenado mínimo. E não é aquele “simples” fajuto com aquele toque azedo de falsa modéstia de quem tem tudo. É aquele “simples” daquelas pessoas que são genuínas, que estão de bem com a vida. Que nos recebem porque gostam de receber, que dão porque gostam de dar, que partilham porque gostam de partilhar, que não tentam provar nada a ninguém porque não têm nada a provar. São simples, quer caiam de ricos, quer não tenham onde cair mortos.

Gosto de gente assim. São as minhas pessoas preferidas no mundo. Talvez porque o meu avô era assim. Mas isto não é sobre o meu avô desta vez. É sobre três irmãos que são simples assim como eu gosto. Quando era miúdo, haviam 3 surfistas irmãos americanos que eu admirava. Eram dos meus preferidos. Via-os nas revistas e nos vídeos. Antes do tempo da internet. Na altura eram surfistas profissionais como os outros. Competiam, ganhavam algumas vezes, ganharam alguns títulos nacionais, eram patrocinados, enfim, surfistas pros como tantos outros. Mas já na altura havia qualquer coisa de diferente neles. Havia um carisma neles que outros não tinham. Daquilo que eu via e lia, parecia que olhavam para as coisas de maneira diferente. E eu miúdo olhava para eles e revia-me naquela maneira de ser e estar. Sou mais ou menos da mesma idade, e portanto da mesma geração, e apesar de nunca os ter conhecido pessoalmente continuo hoje a rever-me na forma como eles abraçam a vida.

A simplicidade dos irmãos Malloy é contagiante. Dan, Chris e Keith. Eles são gajos DIY antes de DIY ser DIY. Percorreram a costa californiana até Baja de paddleboard antes de se chamar SUP e ser a moda que é hoje. Saltaram fora do patrocínio da Hurley e passaram a ser patrocindos pela Patagonia (na altura uma marca mais ligada ao montanhismo) porque se fartaram do circo que o surf se tinha tornado. Preocupados com a natureza, não se consideram activistas, apenas pessoas a fazerem a sua parte para deixar o mundo melhor. Um deles transformou a carrinha para que ela funcione a óleo vegetal em vez de gasolina. Outro fez a costa californiana de bicicleta com pranchas atreladas durante 2 meses. Realizadores, fotógrafos, aventureiros, contadores de histórias. Tanto surfam meio-metro como 10 metros. Tanto surfam na Antártida como em Fiji. Fazem um pouco de tudo. Criativos, humildes e simples. Autênticos. Family men. Quando os ouço falar do pai e a influência que teve na vida deles, gosto de pensar que um dia o meu filho vai falar assim. Dan Malloy diz “it’s amazing how much one person can influence you“. Espero que a minha influência no meu filho o faça um bom ser humano. Uma boa pessoa. Uma pessoa simples. Aquele simples que eu gosto. Faz falta mais gente assim. No surf e fora dele.

Fica o vídeo. Inspirem.