THE RETRO SERIES: O QUE TU QUERES SEI EU

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playground not playstation

Cá estamos para mais uma da Retro Series, onde recupero um post antigo escrito no meu antigo blog.

Hoje lembrei-me de um post que escrevi quando o meu filho me pediu uma méspê. Já lá vai 1 ano e meio. Escusado é de dizer que passado este tempo todo, ele continua sem méspê. Sou um pai horrível. Mas apesar disso, ele já não pede a méspê e continua feliz e o mundo não acabou, e eu, bom, eu consegui o tal aumento apesar da carga horária manter-se. Não se pode ter tudo.

Fica aqui o post para perceberem do que é que estou a falar. Enjoy.

“pai, quero uma méspê”.

Eu_ “uma quê?”

Ele_ “méspê! méspê! não sabes?”

Eu_ “não filho. não sei. é o quê?”

Ele_ “é uma coisa preta para jogar.”

Eu, incrédulo, mas ainda em dúvida_ “uma PSP?”

Ele_ “sim é. uma péspê”.

E começou desta forma a birra de 30 minutos até casa. Diz ele que quer uma PSP. Digo eu que nem pensar. PSP. PlayStation Portátil, não as forças de segurança. Deve estar a brincar comigo. Ao que parece, um miúdo lá da escola tem uma e levou-a. Um colega dele portanto. Um miúdo de 4 anos. Com uma PlayStation Portátil. Teria muito a dizer sobre isto. Na verdade, apeteceu-me falar no assunto na reunião de pais que tivemos na escola esta semana. Falar como à conta disso tive de levar com uma birra monumental do meu filho. Como tive de explicar a um puto de 3 anos porque é que o amigo tem uma PSP, mas que ele não pode nem vai ter uma. Como tive de ser incisivo e assertivo na minha posição intransigente de “não te vou dar nenhuma PSP”. Como tive de fazer um exercício de retórica e pensamento abstracto para além do humanamente possível de forma a explicar-lhe porquê. Como por causa do amigo e da sua PSP tive um final de dia de merda e o meu filho também. Mas epá, quem sou eu para julgar os outros pais. Os pais do Zé (vamos chamar-lhe assim) também certamente não concordarão com o meu filho a andar de skate sozinho com 3 anos. Um desporto perigoso e que pode levar a que ele parta um braço ou uma perna.

A mim faz-me confusão os pais queixarem-se que os putos são muito dependentes dos jogos e dos iPads e iPhones, quando são eles que os põem nas mãos dos filhos com 3 anos. A eles deve fazer confusão eu queixar-me do meu filho se espetar em ouriços quando sou eu que o deixo andar em cima das lages no mar. Ou de me queixar da frustração dele quando não consegue alguma coisa, quando sou eu que lhe digo que ele consegue tudo se quiser. É assim. Somos todos os melhores pais do mundo. E somos todos uns pais de merda. Tive muita vontade de falar no assunto na reunião. Mas depois não o fiz. Porque isto é uma lição. O meu filho nem sempre vai ter tudo o que o amigo ou colega tem. Nem os amigos ou colegas vão ter tudo o que ele tem. Ele tem de aprender a lidar com isso. E eu tenho de aprender a conseguir explicar o inexplicável. Ou pelo menos que faça algum sentido na cabeça dele. E se eu conseguir isso com um miúdo de 3 anos, raios me partam se não vou conseguir convencer o meu chefe a dar-me um aumento e a reduzir-me a carga horária.

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