HUMANOS, MAIS UMA VEZ

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#natureconservation

Eu tento. Juro que tento ver o bom nas pessoas. Mas porra, fica difícil. Às vezes questiono-me se não sou eu que sobrevalorizo o meu senso comum. Mas eu todos os dias sou confrontado com seres humanos básicos, toscos, rudimentares e, como dizer, parvos como calhaus.

Sou um gajo que tento ver o bom nas pessoas e o bom no mundo. Juro que sou. Daqueles que acham que o nosso mundo pode ser maravilhoso se quisermos e a vida uma coisa que vale a pena ser vivida (chega pra lá, Lili Caneças). Mas porra, há sempre alguém a querer provar-me que o ser humano pode ser unicelular. E essa única célula não se encontra no apêndice que trazem em cima do pescoço.

Isto a propósito da notícia que morreu um golfinho numa praia da Argentina porque um grupo de seres humanos decidiram tirá-lo da água e desatar a tirar selfies com ele até ele morrer. Apesar de reconhecer que o golfinho provavelmente preferia morrer a tirar selfies com estes grunhos, bem sei que a história não terá sido bem assim. Quase garanto que o golfinho já deve ter dado à costa morto ou moribundo. Porque por acaso já estive no mar com golfinhos e garanto que não se deixam agarrar, muito menos sacá-los da água à mão. O que aqui me turva a compreensão, foi estes aberrantes humanóides passarem o corpo do golfinho morto ou moribundo de mão em mão para tirarem selfies com ele para eventualmente colorirem os seus murais de merda do facebook. Curioso para saber se escrevem na legenda: “Eu e o corpo de um golfinho morto na Playa Santa Teresita #lovewalkingdead 😛” ou “Melhores férias de sempre! Até fizemos um amigo! #zombieflipper“.

O video que acompanha a notícia mostra um homem a tentar que o golfinho se safe sozinho na água. Mas ele percebe que o animal não está bem. Inteligentemente tira-o da água funda, porque o golfinho é um mamífero e não um peixe, o que significa que respira através de pulmões. Se não estiver capaz de nadar, um golfinho pode afogar-se. Mas deixa-o numa zona onde é possível manter a humidade do corpo, sem que ele se afogue. Segundo a notícia o animal terá entretanto morrido. E é aqui que começa o carnaval das selfies, com uma pequena multidão a tentar tocar, mexer e fotografar-se com o desgraçado do animal morto ou ainda moribundo.

Tento encontrar uma forma de descrever estes básicos calhaus bárbaros que são tão estúpidos que até me custa entender como é que conseguem andar sobre duas patas e verbalizar palavras. Mas não consigo. Custa-me entender como é que no meio de tanta gente, não há uma única pessoa que diga: “Eiiiiiiii! Parou óh pacóvios! Mas vocês são parvos ou fazem-se?! Querem tirar selfies, vão práli práquela falésia ali em cima, ponham-se de costas para o mar e vão tirando fotos enquanto dão 2 passos para trás. Vá, pousem lá o animal antes que eu vos enfie este búzio gigante pelos cornos abaixo até ficarem a cagar perceves durante uma semana. Não conseguem ver que está morto óh bestas cúbicas?  Tenham respeito!“.

Foi um momento triste e de vergonha de pertencer à espécie humana, quando vi esta notícia. Uma vergonha. De tal maneira que o meu filho me perguntou do que é que estávamos a falar quando contava isto à minha mulher, e eu não tive coragem de lhe explicar. Ao ponto que se chega para ser-se o maior da sua rede social. Selfies com animais mortos. F#$@-se.

Lo siento, delfines. No somos todos pendejos.

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O DIA DE AMOR DO ANO

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Se calhar não vou a tempo. Mas ainda assim, queria falar do dia dos namorados. Porque dia dos namorados é quando eu quero. Apesar deste ano calhar num domingo. Tenho a certeza que foi um dia maravilhoso para muitos casais. Passear de mão dada. Selfies a dois com o mar ao fundo. Flores em cada esquina. Postais com cupidos. Restaurantes cheios. Hotéis cheios. Corações cheios. Foi um dia de amor.

Eu que sou um gajo muito atento a estas coisas tinha um domingo inteirinho preparado para isto. Acordar às 6 da matina. Preparar um granda breakfast, daqueles continentais, com sumo de laranja, chá, scones, torradinha com manteiga, queijinho, fiambre, ovinho mexido, mel e uma flor. Ia preparar a música (o Dance Me to the End of Love do Leonard Cohen claro) para a acordar com uns beijinhos no pescoço enquanto o sol espreitava por entre as cortinas. Ia levá-la pela mão, seguindo o caminho de pétalas que dispus cuidadosamente no chão e que nos levavam até à kitchenette onde tinha o breakfast continental à nossa espera. Antes de nos sentarmos, dançávamos lentamente, bem juntos, ao som do Leonard Cohen, que estava a cantar só para nós. Comíamos em silêncio sereno, pautado apenas por beijinhos e festinhas na mão e o sorriso cúmplice quando o Leonard Cohen cantava “touch me with your naked hand“. Depois de comermos, dizia-lhe que tenho uma surpresa. E começei a abanar. A abanar, a abanar…

Ela_ Ouve lá, acorda! Estavas a sonhar com o quê? Estavas a cantar Leonard Cohen?

Eu_ Porra não me digas nada! Porque é que me acordaste?

Ela_ Então, porque estavas a cantar Leonard Cohen!

Eu_ Estava a sonhar que te tinha preparado um daqueles dias dos namorados, daqueles à pinga-amor.

Ela_ Tu? Pra mim?! Desde quando?

Eu_ Sei lá. Eu não ando bem. Não te rias. E a seguir ia te dar uma surpresa.

Ela_ O que era?

Eu_ Não sei. Acordaste-me.

Ela_ Fosse o que fosse, tu não me faças uma cena dessas.

Eu_ Qual cena?

Ela_ Um dia dos namorados à pinga-amor.

Eu_ Não te preocupes. Este até metia pétalas, música, fofices e até um pequeno-almoço continental.

Ela_ Um pequeno-almoço continental?

Eu_ Sim. Daqueles com tudo.

Ela_ Panquecas também?

Eu_ Não me lembro, mas se calhar tinha.

Ela_ Estás à espera de quê?

Eu_  Haha. Esquece. Tenho uma ideia melhor. Saltamos o pequeno-almoço e…

« Pai!!! Paaaaiiiii! Já acordei! Podes brincar comigo? »

Eu_ É o nosso filho?

Ela_ É.

Eu_ São 7 da manhã?

Ela_ São.

Eu_ Ainda bem que não ligamos ao dia dos namorados.

É que não há ano nenhum porra.

 

DIA INTERNACIONAL COM C GRANDE

 

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not my picture of course. it’s Pennie Smith’s. e é uma foto do caraças do Paul Simonon a tratar da sua Fender.

Gosto dos dias internacionais. Eu sei que há um bocado aquela coisa de “ah e tal, devemos é celebrar a paz todos os dia” ou o “todos os dias são dias da mulher” ou “dia mundial da amizade é uma estupidez porque não tenho amigos” ou “o dia internacional da pevide é ridículo“. Pois eu gosto dos dias internacionais. Algumas pessoas não percebem, mas os dias internacionais não são tipo uma marcação de consulta, que um gajo tem no dia 12 de março às 15h30 e depois pronto, passou. Não. São dias simbólicos, senhores e senhoras. Sim-bó-li-cos. Não quer dizer que um gajo não ame todos os dias os pais, que não se preocupe com o ambiente todos os dias, ou que não ache todos os dias que porra já é tempo das mulheres terem os mesmos direitos, deveres e oportunidades dos homens.

Por isso para mim os dias internacionais são cool. E gosto que hajam dias para tudo. Afinal de contas são 365 dias, porra. Nos anos mais pequenos. Pena é não haver mais.

Mas para quê esta conversa dos dias internacionais? Porque hoje é um dos dias internacionais que mais gosto. Dia Internacional dos Clash. Boom! Sim senhor. Há um dia internacional dos Clash. Vai buscar. E só para ti que não vais na conversa dos dias internacionais, eu ouço Clash todos os dias carago. E o meu filho também. Vá, todos os dias, não. Mas quase. E só por causa das tosses, vou ouvir hoje e é já. Tomem lá uma da minhas preferidas. Vão e tenham um bom fim-de-semana.

THE RETRO SERIES: O QUE TU QUERES SEI EU

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playground not playstation

Cá estamos para mais uma da Retro Series, onde recupero um post antigo escrito no meu antigo blog.

Hoje lembrei-me de um post que escrevi quando o meu filho me pediu uma méspê. Já lá vai 1 ano e meio. Escusado é de dizer que passado este tempo todo, ele continua sem méspê. Sou um pai horrível. Mas apesar disso, ele já não pede a méspê e continua feliz e o mundo não acabou, e eu, bom, eu consegui o tal aumento apesar da carga horária manter-se. Não se pode ter tudo.

Fica aqui o post para perceberem do que é que estou a falar. Enjoy.

“pai, quero uma méspê”.

Eu_ “uma quê?”

Ele_ “méspê! méspê! não sabes?”

Eu_ “não filho. não sei. é o quê?”

Ele_ “é uma coisa preta para jogar.”

Eu, incrédulo, mas ainda em dúvida_ “uma PSP?”

Ele_ “sim é. uma péspê”.

E começou desta forma a birra de 30 minutos até casa. Diz ele que quer uma PSP. Digo eu que nem pensar. PSP. PlayStation Portátil, não as forças de segurança. Deve estar a brincar comigo. Ao que parece, um miúdo lá da escola tem uma e levou-a. Um colega dele portanto. Um miúdo de 4 anos. Com uma PlayStation Portátil. Teria muito a dizer sobre isto. Na verdade, apeteceu-me falar no assunto na reunião de pais que tivemos na escola esta semana. Falar como à conta disso tive de levar com uma birra monumental do meu filho. Como tive de explicar a um puto de 3 anos porque é que o amigo tem uma PSP, mas que ele não pode nem vai ter uma. Como tive de ser incisivo e assertivo na minha posição intransigente de “não te vou dar nenhuma PSP”. Como tive de fazer um exercício de retórica e pensamento abstracto para além do humanamente possível de forma a explicar-lhe porquê. Como por causa do amigo e da sua PSP tive um final de dia de merda e o meu filho também. Mas epá, quem sou eu para julgar os outros pais. Os pais do Zé (vamos chamar-lhe assim) também certamente não concordarão com o meu filho a andar de skate sozinho com 3 anos. Um desporto perigoso e que pode levar a que ele parta um braço ou uma perna.

A mim faz-me confusão os pais queixarem-se que os putos são muito dependentes dos jogos e dos iPads e iPhones, quando são eles que os põem nas mãos dos filhos com 3 anos. A eles deve fazer confusão eu queixar-me do meu filho se espetar em ouriços quando sou eu que o deixo andar em cima das lages no mar. Ou de me queixar da frustração dele quando não consegue alguma coisa, quando sou eu que lhe digo que ele consegue tudo se quiser. É assim. Somos todos os melhores pais do mundo. E somos todos uns pais de merda. Tive muita vontade de falar no assunto na reunião. Mas depois não o fiz. Porque isto é uma lição. O meu filho nem sempre vai ter tudo o que o amigo ou colega tem. Nem os amigos ou colegas vão ter tudo o que ele tem. Ele tem de aprender a lidar com isso. E eu tenho de aprender a conseguir explicar o inexplicável. Ou pelo menos que faça algum sentido na cabeça dele. E se eu conseguir isso com um miúdo de 3 anos, raios me partam se não vou conseguir convencer o meu chefe a dar-me um aumento e a reduzir-me a carga horária.

CARTA ABERTA A UM AVÔ E A UM PAI

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Avô e pai que se cruzaram comigo ontem,

A lição que deram ontem às crianças que vos acompanhavam é um atestado à mais básica estupidez humana. Ontem, as duas crianças que cada um de vocês levava pela mão assistiram no espaço de 1 minuto a vários exemplos da elementar falta de valores, da fundamental falta de responsabilidade e da falta do mais básico senso comum. Tenho pena por elas. Tenho a certeza que vocês são para elas modelos de conduta, e com base naquilo que esses miúdos viram ontem, a possibilidade de repetirem tamanha estupidez é grande, o que é uma pena. Porque na melhor das hipóteses fará delas seres humanos básicos sem sentido de civismo ou na pior das hipóteses poderá lhes custar a vida.

Explico para que seja mais claro, uma vez que com base no que vi ontem o vosso nível intelectual está ao nível dos calhaus nas pedreiras. Quando se atravessa uma estrada devem fazê-lo numa passadeira. É certo que nem sempre isto é possível. Quer por sermos preguiçosos, quer por não haver nenhuma. Eu próprio já atravessei a estrada fora de uma passadeira, quer por um motivo quer por outro. Quem não o fez? Mas mesmo quando atravesso uma estrada sem ser na passadeira, faço-o rapidamente, nunca a passear, e nunca a pôr em risco a minha vida ou a dos outros. Isto quando estou sozinho. Quando levo o meu filho na mão, nunca atravesso fora da passadeira. Nem que tenha de andar mais 100 metros. Se por acaso a estrada não tiver passadeira, ensino-o o mesmo procedimento. A olhar para todos os lados. E só depois de nos certificarmos que é seguro, é que atravessamos rapidamente. Rapidamente e nunca a passear. Tomem notas se estiver a ser muito confuso ou rápido para vocês.

O que vocês ontem fizeram é típico dos animais que acabam atropelados na autoestrada. Por isso, resta-me concluir que o vosso senso comum é equivalente a de um bode que foge do rebanho ou do curral e que decide atravessar a A1 para ir pastar ao outro lado.

Quando eu tive de travar e buzinei de aviso, o facto do bode mais velho, desculpem… do avô… não, esqueçam, é mesmo bode… ter vindo me pedir justificações e chamar-me estúpido em frente às crianças, leva-me a crer que além da inteligência afunilada de um bode velho, tem também a incapacidade de reconhecer o mal que está a fazer às crianças que o acompanham, tendo o nível de consciência e empatia de um monte de estrume de vaca, daqueles que ficam a fumegar no meio do pasto a fermentar.

As caras assustadas e confusas das crianças diziam tudo. Mas como se costuma dizer, todos os cães têm sorte, e a vossa sorte é isto ter acontecido comigo. Se tivesse acontecido com um acelera ou alguém distraído, ontem 4 pessoas tinham sido atropeladas. 2 adultos irresponsáveis mentecaptos e 2 crianças inocentes. Ou se tivessem apanhado algum maluco, quando o bode velho viesse pedir explicações, tinha saído do carro e aviava-lhe a receita.

Mas não. Felizmente tiveram sorte. Desta vez. Porque calhou comigo. Ainda bem, ainda bem.

Agora vamos lá recapitular, a ver se percebem e explicam às crianças tudo o que correu mal ontem e que poderá salvar-lhes a vida no futuro:

  • A passadeira que tinham a 10 metros é o sítio certo e ideal para tentarem atravessar a estrada. Não devem evitar andar esses 10 metros só porque são preguiçosos, porque o que ficou retido na cabeça das crianças que levavam é que não precisam de atravessar na passadeira e que podem atravessar em qualquer sítio. Errado. Agora repitam comigo: “meninos, o que o avô e o pai fizeram ontem está errado. Nunca devemos atravessar fora da passadeira quando há uma.
  • Antes de atravessar a estrada, olhem com atenção para ambos os lados e não se atravessem em frente a carros que estão a passar. Um carro que bate no corpo, aleija. Aleija a sério. E às vezes até mata, pasmem-se. O que ficou retido na cabeça das crianças é que não precisam de olhar nem esperar que os carros passem, e que podem atravessar repentinamente quando quiserem. Errado. Agora repitam comigo: “meninos, o que o avô e o pai fizeram ontem é muito perigoso. Nunca nos devemos atravessar em frente a carros que estão a passar e devemos sempre olhar antes e esperar que não venha nenhum carro para atravessar.
  • Quando se atravessa uma estrada, devemos sempre fazê-lo o mais rapidamente possível e nunca a passear, sempre, mas especialmente se estivermos a atravessar fora da passadeira, e particularmente se levarmos crianças na mão. O que ficou retido na cabeça das crianças é que podem passear no meio da estrada sem qualquer preocupação, porque os carros que parem. Errado. Agora repitam comigo “meninos, o que o avô e o pai fizeram ontem nunca se faz. Devemos sempre nos despachar a atravessar a estrada, porque senão algum carro pode nos bater e podemos ficar seriamente magoados ou até morrer”.
  • Por fim, quando alguém buzina para avisar, é para evitar que se magoem ou para se aperceberem do perigo. Quando se vem pedir justificações a insultar quem vai no carro quando não se tem a mínima razão, arriscamos a apanhar alguém que não está para isto e corremos o risco de levar na tromba. O que ficou retido na cabeça das crianças é que se podem meter a insultar pessoas que não conhecem mesmo quando não têm razão. Errado. Agora repita comigo: “meninos, o que o avô fez ontem não se faz. Não nos devemos meter com pessoas que não conhecemos e muito menos insultá-las sem termos razão. Pode até ser perigoso. O senhor do carro estava a ser simpático e a alertar para a merda que o avô e o pai estavam a fazer ao pôr em risco a vossa vida e ao dar-vos um exemplo triste do que não se deve fazer. Devemos lhe pedir desculpa e agradecer o alerta, prometendo que nunca mais fazemos tamanha asneira.

Bom, espero ter sido de alguma ajuda e de alguma forma ter contribuido para um futuro mais seguro desses miúdos. Se não conseguiram perceber, o que acho natural tendo em conta o que vi ontem, peço-vos o favor então de entregar a tutela das crianças à mãe e à avó, caso estas sejam mais prudentes e responsáveis. Querem se matar, façam-no sozinhos. Os miúdos não têm culpa.