BALANCEM OS OPOSTOS

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ex. um abraço anula uma frustração

E vai para mais de 1 mês que não escrevia. Já precisava. Eu escrevo para partilhar, para recordar, para pensar e fazer pensar, para rir e fazer rir, mas também escrevo para me libertar. Libertar de frustrações. Sou fácil de frustrar. Porque sou muito atento aos detalhes e aos valores. Detalhes há muitos. Valores há poucos. E isso dá-me cabo da cabeça e da paciência. O raio das frustrações vêm de todo o lado. Frustrações por ter de lidar com merda no trabalho. Frustrações de ter de levar com mentecaptos no trânsito. Com falta de civismo no supermercado. Com falta de carácter de pessoas que nos rodeiam. Com o Estado que nos consome em vez de nos representar. Com os bancos que nos espremem quando somos nós o ganha-pão deles. Com a mãe do colega do nosso filho que estaciona o carro em cima da passadeira ou do passeio para não mexer a peida gorda e andar mais 5 metros. Com o javardo que deixou a toalha do ginásio no chão para o funcionário a apanhar em vez de a meter no cesto das toalhas sujas. Com amigos que deixaram de o ser porque nunca o foram. Com aquela pessoa que pensávamos que nos era leal mas que afinal é tão reliable como um chapéu de chuva num furacão. Com o lixo que vemos todos os dias na TV e no jornais. Com o lixo que vemos todos os dias no chão. Um gajo se não se põe a pau, anda frustrado todos os dias e a toda a hora. Por isso é preciso libertar. Eu apesar de ter o dom de me frustrar facilmente, tenho felizmente também o dom de me libertar das frustrações com coisas simples. Um abraço do meu filho. Uma manhã de skate com ele. Uma surfada sozinho na minha onda preferida. Uma volta com o meu cão na Foz. Beber um copo de vinho com a minha mulher enquanto contamos histórias ou falamos de música. Ouvir o album The River do Bruce Springsteen. Cozinhar uma coisa nova. E escrever.

Vocês que me lêem, não se deixem frustrar como eu. Ou se forem como eu, libertem-se como puderem. À vossa maneira. O mundo pode ser uma valente bosta, mas também pode ser uma verdadeira pérola no meio deste vasto universo. Lembrem-se de que para cada perfeito anormal que vos fecha a porta na cara, há alguém que adora beber um copo e conversar convosco. Para cada estafermo que se enfia à vossa frente à cara-podre quando estão há uma hora parados na fila, há uma pessoa disposta a dar o seu lugar na fila de compras do supermercado porque vocês só levam um saco de pão. Para cada colega cínico e mesquinho no trabalho, há um que vos adora e admira pelo vosso trabalho e carácter. Para cada insulto de um filho-da-puta, há um abraço de um filho, de uma irmã, de uma mãe ou de um pai. Para cada mossa na porta do carro, há um album do Bruce Springsteen. É isto a vida. Yin e yang. Mau e bom. Preto e branco. E viver é isto. The balance of opposites.

E eu já me sinto melhor. Até ao próximo estafermo que se atravesse à minha frente. Depois lá vem o abraço ao filho e o álbum do “Boss“.

Balancem esses opostos, meus amigos e minhas amigas, balancem esse opostos.

 

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9 thoughts on “BALANCEM OS OPOSTOS

  1. Este texto poderia ser escrito por mim, menos aparte otimista do final. Estou tão desiludida com as pessoas e com o mundo que nem sempre consigo ver os dois lados.
    Mas também esqueço as frustrações com abraços, beijos e momentos de partilha com quem mais gosto, a escrever, a ler, ouvir música, a correr ou a caminhar e passear.

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  2. Talvez seja da idade… há muito pouca coisa que me deixa frustrada. Não controlo os outros, as suas atitudes e muito menos os seus valores (ou falta deles). Não me resigno, mas também não me deixo afectar. Prefiro sorrir porque sei identificar os casos em que tenho um comportamento mais civilizado/adequado/diferente. Prefiro trabalhar o que tenho em casa (o filho). Identificar as coisas boas e as más. As estúpidas e as extraordinárias. Se isso falhar por alguma razão é que me sentirei frustrada… porque enquanto eu podia ter controlo sobre alguma coisa, não o fiz. Mas penso estar no caminho certo (e acho que vocês também).

    Partilho o copo de vinho, partilho o contar de histórias e a música!

    beijinhos grandes aos 3***

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    1. no meu caso não acho que seja da idade. apesar de sentir fico menos frustrado agora que há dez anos, fico na mesma. é feitio mesmo. deixo-me afectar às vezes, é verdade, porque olha, sou humano e sou um gajo imperfeito que tem tantas dúvidas como certezas e tantas capacidades como incapacidades. um humano imperfeito com as emoções à flor da pele, para o meu bem e para o meu mal. não tenho a certeza que o caminho que levo seja o certo, mas também nunca me foram prometidas certezas. jogo com as cartas que me são dadas. e jogo para ganhar. não quer dizer que não fique lixado por perder uma mão com alguém que faz batota. o que sei e disso tenho a certeza, é que faço a maior parte das vezes o melhor que sei e que posso, e quando não faço, sinto-me mal e tento corrigir para o futuro. concordo contigo nas tuas palavras. e também penso que estejas no caminho certo. e fico feliz por estares. um grande abraço a ti e ao teu miúdo mais giro. godspeed nesta viagem chamada vida.

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  3. Bem não diria melhor. Estava mesmo a precisar de “ouvir” estas palavras. Sinto o mesmo em tudo, pensei que era diferente, mas afinal ainda somos muitos, os bons. Um abraço ao filho ajuda mesmo 🙂 Obrigada por partilhares o que sentes , afinal há pessoas boas no mundo.

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